Aguardava na calçada, com um pequeno embrulho em suas mãos e um olhar evasivo para o lado oposto ao meu. Quando falava com ele me sentia menor do que sou e muito menor do que pensei um dia ser. Ao seu lado, não era nada, coisa boba, tola, ele era mais. Ele era apenas um órfão com medo de segurar apenas um embrulho e de ser chutado como lixo, como tantas vezes foi por outros, e cauteloso, não chegava muito perto. Mantinha distância, um metro e trinta e sete centímetros. Setenta e três vezes fora abandonado. Pelos cálculos, mais quatrocentos e sessenta e duas ainda estariam para acontecer. Magro, negro, não. Alto para a idade, saudável, assustado e fugidio. Não lembro, talvez treze anos, com cara de dezesseis. Talvez uns doze. O fato é, que voltando para minha casa o encontrei e sugeri, assim, como não querendo nada, que ele viesse comigo e me contasse a sua história. Concordou, desde que a distância continuasse e que eu lhe pagasse um pão com manteiga na rua das padarias. Após eu lhe oferecer um suco de laranja, e ele ficar extremamente desconfiado com a máquina de café que fazia barulhos de grãos triturados, ele me encarou. A primeira vista. Olhos escuros. Quase negros não fosse os tons castanhos amarelos entre eles. Não sabia ler. Não lia nada mas entendia tudo. Então ele me disse sobre o medo de pessoas próximas e de como não sabia explicar o medo que sentia, pois não conseguia lembrar do motivo pelo qual o deixasse traumatizado. Depois chegou o pão, demorou longamente com o suco e ia se divertindo com o canudo que se curvava e fazia bolhas amareladas em seu copo, soprando. Não insisti no assunto, esperava a continuação dele. Ele me sugeriu um ambiente menos cheio de olhos, ri. Ele chamava a atenção para si mesmo fazendo aquela algazarra toda com um simples canudo! Não poderia dizer que não e já havia nele algo meu, minha própria curiosidade ia se instalando naquele pequeno ser. Levemente educado, comprei uma bala de goma. Na verdade, um pacote e, enquanto saíamos do ambiente já cheio, larguei algumas no chão, roxas. No breve instante em que seus olhos cruzaram com os meus, vi que havia algo em comum entre nós, havia rancor pelas balas de gomas roxas. Ele me conduziu por entre as ruas. Ia e vinha, fazia voltas enormes para chegar em um mesmo ponto, percebi sua confusão e perguntei: "Poderia me deixar saber qual lugar busca." Ele olhou, olhou e se afastou. Não fui avisado e saí junto com ele, correndo. Rápido. Sem fôlego. Beirando à exaustão. Ele continuou e não olhou para trás. Apenas corria. Apenas... sem pena. Sem dor e com medo. Sem saber e com repulsa. Morri ali, com um embrulho na mão, sem saber o motivo do medo. Sem saber o que continha o embrulho.
Me sinto mal, por todos os momentos dos quais te evito, aqui e acolá. Eu não te leio mais. Eu nem mesmo sei quando deveria estar fazendo algo… menos do meu trabalho. Tem sido demais. Muitos amigos foram jantar fora. Eu permaneci. Calada, fronte a tua porta, querendo te ver. Querendo te ter. E tu comeu mundos. Mandou. Mudou. E fui. E nem mais sei o que resta desse espaço virtualístico. Uma esperança?
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