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Cabeluda

Eu não tinha mais nada. Suava as axilas por detrás daquele pano cinza. Detesto verão... Será que estava visível? Como eu olharia minha axila despercebidamente... como? Não fedia. Ao menos nas axilas ninguém coloca opinião. Mentira! Axila não é bunda e nem opinião. Porém, todos ficam de carão. É feio tê-los. Uma loba como eu, não pode os ter tão visíveis... devo disfarçar.

Olhos arregalados.
Para um lado. Ninguém.
Para o outro. Também não.
Levanto o braço disfarçadamente.
Inclino a cabeça levemente pra frente.
Penso em todos os filmes de comédia.

Riram de mulheres peludas.
Riram de homens peludos.
Riram de qualquer um.
Então. Mídia.

E o rosto cabeludo? Tu tem bigode, sabia? Tu não se incomoda com os pelos na cara?
Não.
Eles são parte de mim. Nunca me fizeram mal.

E a sobrancelha? Que feio...
E na intimidade?
Ah, mas ele deve detestar!

E eu não conto, não?

É meu corpo sabe...
Sabem, ninguém nunca reclamou.
Só vocês.

Ah, mas eles devem reparar...

Penso que caso eu estivesse morando no local mais desejado do mundo, no fim dele, eu estaria protegida. É frio. Dizem. Sim, é bom. E lá também tem mídia, iriam chatear igualmente! Oh, realmente. Respiro fundo. E alguém me observa!

Droga! Carambolas!
Como ver as axilas sem ser notada?
Quase fui pega em flagrante. De todas as leis sociais ser pega vendo sua própria axila é a mais julgada de todas:

Ela fede!

Tu viu a quantidade de cabelo nela?

Não sei o que ele vê nela!

Daria pra fazer uma trança nas canelas dela.

Tu só vai conseguir um emprego se tu se depilar!

Os cabelos, por mais inaptos a tomar quaisquer atitudes sobre uma pessoa tem a capacidade irrevogável no julgamento alheio. E assim, todos continuam fazendo o que dizem pra fazer. Por estarem inseridos nesses padrões cabeludos da sociedade que exigem um comportamento de tratamento, corte e beleza de todos os tipos dos pelos espalhados pelo nosso próprio corpo. Que parece não ser mais nosso, mas da opinião alheia.


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