Eu mesma, sim! Morri ali, veja: quatro braços, dois deles em formatos alienígenas, uma mão que continha um grande dedo em bolota na ponta, umas perninhas pequeninhas e uma barriga gigante seca de fome. Os outros membros eram bem normais até. Ah! Os olhos! Eram fossilizados, sem cores, vidrados com a morte já ali, se expressando naquele além que não enxerga mais nada. Depois, ou antes? Não tenho certo na minha memória, ela está velha, deve ser porque de fato, não tenho como lembrar mais se esses bichos vivem comendo o que resta de mim. Ah, sim... essa consciência sobrevive até quando, finalmente, terei fim da forma física. É uma boa maneira de medir esses esforços de academia, boa alimentação... Espera, um instante. Tá bem, voltei. Como ia dizendo... eu morri. Sim, eu estou morta, mortinha. Quisera eu ser tão viva quanto esses teus olhos, estimados leitores! Que brilho vívido vocês me deixam! Só ofusca a mente, nem sei quem são. Quem são? No que segue da narrativa, depois da morte, é simplesmente esse vazio. Terei eu morrido em vão? Que adianta a morte de eu mesma, quando ainda dialogo aqui? Ah, não fossem esses lerdos de bichos! Me comam e me consumam duma vez! Estou já falando asneiras, me tornando mais uma vez sentimental, lembrando das migalhas do que fui... Eu fui uma vez, serelepe e feliz, pulava e corria! Não se preocupem, eu sempre retorno a vida. Não sei quem me fez assim, mas sei que vão me fazendo de alguma forma para retornar desse submundo. Que maldição! Eu passo por todo processo: nasço, cresço, vivo um tanto, depois... me matam! Me matam! Que coisa! Eu de novo morro! Sempre! Isso é extremamente irritante, não serve de nada, nunca chego ao meu potencial corpo, com rugas, com marcas de vida. Sempre me matam antes de conseguir uma idade avançada. Parecem que veem que eu sofro com a falta da velhice já! É uma sina! O que resta depois? Essa consciência velha. Que se esvai... depois retorna no corpo recém nascido. Não tenho ao certo quanto tempo leva essa transferência, mas é, aparentemente, rápida. Comparado, claro, ao processo de digestão desses lamentáveis bichos que me comem. Eu digo o seguinte: se tu conseguir ver esse meu corpo em decomposição peço, por gentileza, que me coloque num lugar menos visível onde possa me decompor sem atrapalhar a vista de quem tanto quis matar-me. É humilhante demais morrer e, ainda mais, ser alvo dos olhares do assassino que, todos os dias, me observando, transita no local do crime.
Me sinto mal, por todos os momentos dos quais te evito, aqui e acolá. Eu não te leio mais. Eu nem mesmo sei quando deveria estar fazendo algo… menos do meu trabalho. Tem sido demais. Muitos amigos foram jantar fora. Eu permaneci. Calada, fronte a tua porta, querendo te ver. Querendo te ter. E tu comeu mundos. Mandou. Mudou. E fui. E nem mais sei o que resta desse espaço virtualístico. Uma esperança?
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