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Nunca recebeu anéis

Eram três horas e quarenta e sete segundos. Nessa hora exata, ela acordou: sobressaltada, revirou por sobre a mesa de cabeceira. Onde estava? Tateando, derrubou dois livros sobre um tapete colorido, aquele tapete feito na praia de Garopaba, que, um dia, compraram juntos. Hoje, ela tateava o escuro, não usava mais óculos, mas ainda não enxergava tão bem. Ainda mais no escuro. Conseguiu resmungar uma "merda", e tentou se levantar da cama. Pisou sobre algo: crack. Algo estalava sob seus pés, provavelmente o resto de uma bolacha largada pelo chão. Não limpava aquele lugar havia tempo. Enfim, encontrou o abajur. Ligou. Juntou os livros caídos. Pegou seu pé, olhou  sua sola: retirou os restos de farelos, visualizou sua marca de nascença. Um ponto bem ao meio, um ponto. Como se tivesse sido ali o começo de tudo. Pés. Um ponto por começar, um ponto para continuar. Pés são muito esquecidos, normalmente as pessoas os ignoram. Ela tinha carinho por pés, eles suportavam muita carga. Não era de pesos que ela lembrava, mas um pé bem amado, deixava prazeres por onde passava: dedos de pés sobre gramados verdes, afundar os pés em lama, sentir as texturas de um asfalto quente, correr com pés molhados e chinelos havaianas. Pés eram subestimados, mas eram um importante aparato de memórias. Ela, que talvez apreciava seus pés por ter nascido entre caixas de sapatos, olhava aquele ponto lembrando todos os pontos de sua vida. Então, se deu por conta: precisava entender que horas eram. Três horas e quatro minutos. Era interessante o tempo: ele passava mais rapidamente quando ainda não estava desperta por completo. Alongou seu corpo, deixando a cabeça cair entre os joelhos, levou os braços para o chão, molenga, parecendo uma boneca sem feições Barbie. Uma boneca russa, que era congelada e com um sorriso forçado, pintado por sobre uma cara redonda, emitia algo profundo: camadas que se escondiam por uma beleza criada à mão. Fechou os olhos, relaxou o rosto, os ombros, se balançou. De forma abrupta levanta-se e arrasta o cabelo cortando o ar. "Vupt". Interessante, pensa. Barulhos ao vento. Coloca as mãos por sobre os quadris, faz movimentos circulares. Pula três vezes. Eleva as mão por sobre o rosto, agora já se encontra em fronte ao espelho: dois tapinhas secos contra as bochechas. Acorda! Acorda! Sua cara redonda, que normalmente fica pálida no inverno, agora está mais rosada. Joga água gelada por sobre a cara inteira, enchendo em forma de concha as mão e repetindo o lançar de água três vezes. Três. Agora, seca suas mãos. Vê uma sujeira por baixo de uma unha mau feita. Nem repara aos detalhes, mas ali, naqueles dedos que eram prometidos, nunca recebeu o anel. Três anéis foram prometidos. Nunca recebeu eles. Pensa em todas as tarefas do dia, menos em anéis, nunca pensou em anéis, mas eu, aqui escrevendo, reparo neles e em sua inexistência. Ela nunca percebeu as promessas que nunca foram cumpridas. E nem percebeu nos seus significados. Ela passava pela vida, leve, intensa, tempestuosa e de ressaca das unhas que rasgam peles por prazeres. Do que é feito os ciclos que não representa o anel? Todos os anéis que um dia foram possíveis ela nem lembra o que a levou um dia repetir, um, dois, três. Acabou. Ciclos fechados, que se rompem ante uma chama: anéis são caros, raros e mais ainda, voláteis em promessas confusas. Significam união, comprometimento, fidelidade e todas as coisas cristãs do mundo ocidental. Ciclos. Diria que são "não verdades absolutas", pois há quem conhece esse tipo de experiência e é agradável ao longe. Já de perto... Um sistema entrelaçado de teias repetidas que se desgastam. Ela já ligava o carro, quando lembrei de a observar e contar o que ela fazia ali, naquela hora da manhã. Ela havia descoberto que existia algo único. Uma repetição perfeita, nunca possível de acabar. Não buscou nunca anéis, mas agora, nunca se atrairia por eles. São quatro horas da manhã, ela se prepara pra voar por sobre o asfalto de uma aurora por vir. Irá atrás de uma fita de Möbius.

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