Eles se encontraram esta tarde, uma tarde bela de sol. Ele encarou ela, ela encarou ele, um tanto mais baixo que ela. Um tinha dois anos a mais que o outro. Não importavam quantos gritos ouviam-se. Todos estavam onde deveriam às doze horas do dia. Uma hora na cama, outra na mesa. E de doze em doze, os ciclos se repetiam. Ontem ela se revirava na cadeira, enquanto ele se revirava nos lençóis. Dois pequenos mundos separados por horas. Hoje eles não estavam mais separados por horas. Nem quantas horas fariam você ficar próximo dele, não haveria força. Haveria apenas o lamento. A garganta aperta, ela sente como o ronco leve, a garganta aperta. Os olhos de ambos se umedecem, nada podem fazer. Um silêncio acompanhado de uma gaita de boca tocada num parque qualquer. Duas horas, mais dez horas, uma playlist interminável de uma valsa inacabada. Dois pra lá e dois pra cá, uma boca gospe por cima dos pequenos buracos. Os dedos deles se tocam levemente, um leve arrepio sobe sua nuca. Os pelos estão eriçados, começando do antebraço até o ombro. Que imagem, linda, diz ele, linda. E o piano do apartamento ao lado, querido, veja que bonito é ser uma alma leve e aberta, olha, espia, que bela... a admira, e não sendo suficiente, se cala. Uma palavra deixada entre dedos. Um grito na madrugada. Um arrombo na garganta, desespero? Saudade? E ele nem lembra no outro dia, o vazio do espaço, que doze horas carregam.
Me sinto mal, por todos os momentos dos quais te evito, aqui e acolá. Eu não te leio mais. Eu nem mesmo sei quando deveria estar fazendo algo… menos do meu trabalho. Tem sido demais. Muitos amigos foram jantar fora. Eu permaneci. Calada, fronte a tua porta, querendo te ver. Querendo te ter. E tu comeu mundos. Mandou. Mudou. E fui. E nem mais sei o que resta desse espaço virtualístico. Uma esperança?
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