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Um dos vizinhos da vida

O tempo muda e hoje eu mudei o mundo do vizinho. É, não faz muito sentido, mas ao colocar o lixo do lado direito da calçada, eu mudei a vida dele. Ao descobrir que ele sempre espionava por sobre os ombros, olhando esticado para meu jardim, eu decidi que ia fazer tudo ao contrário. Ele, um ser que mantém tradições, não gostou muito, como irei relatar logo mais. Apesar de ser um velho rechonchudo e de cabelos brancos, ele sempre mantinha um sorriso maroto por entre as rugas. Deveria ter feito grande sucesso quando novo com as mulheres e, apesar de ser viúvo, mantinha sua vida ativa. Três ou quatro vezes por semana percebia suas saídas de carro. Muitas vezes, porém, constatei que ele só ligava o motor da caminhonete. Não, era aquelas antigas. Não, não era nova. Deveria ser as lembranças da mulher dele. Os momentos. Coisas que atualmente, nós, jovens, tolos, nem sabemos mais apreciar. O fato é que eu percebia as saídas dele pela noite, quando via visitas entrarem furtivamente por seu portão. Não descobri se ele mantinha preferências por mulheres novas, pois as sombras não me dão tanta distinção. Mas ao mudar a sacola de lixo, ele mudou seu comportamento. Começou a vigiar todas as vezes que o lixeiro passava. Se irritava. Senti que em uma semana, ele havia envelhecido mais que nos últimos cinco anos. Um lado muda tudo. Os sacos começaram a se acumular pela rua. Agora ele perdia a sanidade. Já não se lembrava se estava perdido ou se os lixos estavam sendo retirados. Via sua insanidade. Ele se recolhia cedo. Antes, porém, gritava aos ventos: me deixem em paz, eu sei quem são vocês! E acusava todos os transeuntes. Eu acredito que sacos de lixo, podridão em seu interior, tendem a ficar parados tempos demais. Até que alguém os percebe. Sem intenção de matar o mal... mas algum dia alguém irá remexer nos nossos sacos que acumulamos. Um dia não saberemos se eles sempre estiveram ali. Mas meu vizinho, após aquelas semanas insanas... se livrou. E agora no ar só sinto o cheiro suave de canela e pimenta, um pouco de madeira com flores de laranja. E meu perfume favorito se transforma naquilo que sempre amei: cheiros fortes a não doces. Cheiro de fortalezas. Cheiro do antigo. De histórico e empoeirado. Que arranha a garganta. E me leva ao passado e futuro.

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