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Não entre sem ser convidado

Adentre, senhor, por esta porta estreita, olhe de relance, com olhos profundos de tons azuis que se escurecem na pouca luz. E me encare por um segundo ínfimo. Um pequeno trocar de olhares. Acho que isso basta hoje. Por enquanto. E viro a cabeça pro lado e encaro um muro de pedras, estava eu caminhado pelo meio fio? Tu me desconcentrou. E alguns dizem que eu calculei mal a precipitação da chuva que viria, e minhas tempestades parecem ser medidas por um passado que não pertence mais. E tento ainda andar pelo meio, o caminho do meio. E tudo não basta, respiro novamente então. E respiro fundo por bolhas amareladas. E não coloque muita espuma, colarinhos somente quando a espuma é de qualidade. 

Uma menina pequena corria em seu cavalo imaginário, imaginando que o sonho perfeito seria ter um animal de grande porte para poder domar. Um leão seria muito selvagem para a cidade, pensava. Também questionava se os dinossauros realmente existiram, como, se não constava no livro Sagrado? E um dia teria esquecido disso quando adulta. E subia em árvores, criando diálogos consigo mesma, como foi seu dia? O que tu pensa sobre o universo? Será que a água um dia será escassa? Um dia poderei me teletransportar como nos filmes de ficção? Sua paixão era estar só. Gostava de caminhar na casa onde  cresceu e rangia o chão de madeira propositadamente a ouvir todos os estalos da casa, "forrinho" fino. Ninguém mais além dela. Mas nunca contou que adorava caminhar pela casa, sozinha, entrando nos cômodos, observando a organização de cada um e como tudo fazia parte de uma memória que ela já sabia que deveria decorar para o futuro, seja ele qual fosse. A casa com chão de madeira, janelas grandes e  onde via os pequenos poros contra a luz da manhã. E os pássaros ao fundo. Cantarolando, e então, após ver tudo em sua ordem estática, ela escolhia o local onde a luz encontrava o chão amadeirado, e lembra do ocre do sol esquentar seu rosto, e ficava deitada, respirando, com as mão sobre a barriga, sentindo o subir e o descer. E cheirava o chão que tinha sido recém encerado. Uma cera vermelha. Que algumas vezes ela e sua irmã brincavam enquanto limpavam e lustravam. O chão que não podia ranger quando a mãe ia descansar na sua sesta.

Na adolescência sofreu um pouco. Não encaixava-se. Tentou por um tempo, mas não se sentia ela mesma. Roupas que não a serviam, não pelo seu tamanho, mas pela falta dele. Comportamentos que não a serviam. Diálogos que ansiavam poder ser ouvidos além dela mesma, mas não possuía ninguém. Solitária. Lia livros. Os lia com rapidez, com avidez, como para poder digerir todo conhecimento que sabia que estava longe de possuir. E via filmes. Muitos filmes. E amava por os pés pro ar e ver animais imaginários em nuvens. E a adolescência passou tão sem dramas quanto poderia imaginar. Sem revoltas. Só o humor de pedra. Quieta. Observando o mundo dando a liderança que nunca buscou, nem merecia. Não merecedora. Alguns diziam que o jeito a deixava longe de todos. Ela achava que estava longe de todos. E tudo bem. Tentou falar algumas vezes, mas não se sentia ouvida. E engoliu a voz.

A garota virou mulher. Não foi especial. Nem fez por si mesma. Só atrapalhava o rótulo. Não amava. Não estava emocionada. Foi algo prático. Eficaz ao propósito. E "ele" iria parar de reclamar, feito bebê chorão, que não o amava. E passou tão dolorosamente quanto nascer. E descobriu muito tempo depois que não valia o drama. Amar e atos de representação podiam ser separados. Serviam a propósitos diferentes. E mulher, a mulher que a habitava, não temia. Era força criadora, potente, cíclica, lunática. Mas eles, os eles que a rodearam na vida adulta, eram crianças exigentes. Nunca bem trabalhados. E agora, ela estava se deparando novamente com  as dores antigas, que antes, achava estar curada. E aí lembra: certas dores nunca curam por completam, elas precisam apenas serem cuidadas. Até um dia, pacientemente, ser cicatrizada, mas isso é sem pressa. Com seu tempo.

Um dia muito pior que o outro, as dores vem todas juntas, e as lágrimas acompanham uma playlist triste, de vozes femininas caladas, trancafiadas, solitárias nas dores de agressões, cala, guarda, transborda, afoga, te afoga!

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