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Para minha pequena Francisca

Francisca acordou com os olhos arregalados. Correu no parapeito da janela e ficou a encarar a escuridão do céu. Dizia a lenda, que se você acorda às 3 horas da madruga, algo de ruim viria a acontecer. Francisca não se lembra do que sonhava, mas sabe perfeitamente que naquele sonho ela era real. Sentiu sua pele ser tocada pela pessoa. Quando viu a marca no seu tornozelo teve certeza, esse sonho havia sido real! Baixou os grandes olhos para a penumbra adentrando novamente para as cobertas quentinhas. Manteve-se sentada em posição alerta, mas dando-se confortável abraçando os joelhos. Pensou, Francisca, pois se sou tão ruim de dormir, serei a melhor em ficar acordada! Então lembrou-se das crianças da escola, lhe zombando dos grandes olhos e das grandes meia luas arroxeadas abaixo de cada olho. Certamente que não irão mais me zombar depois dessa, disse para si mesma. Francisca correu para sua mesa de trabalho, acendeu uma vela (gostava de manter o espírito romântico apesar do século não ser o mesmo) e utilizando seu tablet de última geração, começou a rabiscar cenas impróprias para uma garotinha de 9 anos. 

Nas imagens mentais das quais vocês, vermes indolentes, devem pensar, nada tinha de cunho adulto, apenas bullying infantil. Sua amiga, que decidira ter mais uma amiga (que absurdo!), a estava a deixando. Suas pequenas certezas estavam esvaindo-se. E nada tinha de certo mais, nessa longa trajetória vivida até então. Uma eternidade fora para ela entender a expressar-se. Sentia-se calada. E apesar de participar de seu círculo familiar com saraus e sentir-se ouvida, não compreendia como não era bem-vinda naquele meio arquitetônico quadrado e depressivo. Colocou todo seu ódio nos traços e criou as piores histórias de terror que fora capaz de imaginar. 

Até que amanheceu, e percebeu que estava de volta na sua cama, quentinha, com um chá de camomila a aguardando. Um bilhetinho a esperava: que toda noite seja tão criativa quanto essa...


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