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Uma parede.

Na tarde de ontem descobri que apesar de me ver sentada sobre aquele pano, naquela almofada que estava acima de um manto e que estava em contato direto com o chão, eu não estava sentada ali sob aquele chão. Não era eu ali. Eu era um corpo imenso que devido as aleatoriedades de uma vida estava se encontrando defronte a uma parede. E defronte aquela parede havia uma janela.

Defronte à janela havia mais uma parede cheia de janelas. Paredes de formas e tamanhos quadrados, sempre gerando mais e mais paredes e janelas e quadrados e cimentos. Hoje de tarde eu percebi: eu estava numa parede sendo uma janela. Era eu a janela!

Eu sentia a poluição repousando sobre as cores lascadas pelo tempo de uma antiga tinta . Sentia também o vento empurrando cada grânulo de poeira a se amontoar sobre as frestas que eu tinha deixado criar em mim.

Feio e sem vida, eu fazia parte daquilo.

Desocupava cada pensamento numa amplitude lisa, inquebrável e mais perceptível.

Eu estava observando através de todas as janelas.

Eu poderia... entrar em cada parede. Sentir cada mistura feita. Todas as estruturas de mim em pé.

Mais do que uma janela, eu podia sentir. Estavam todas as vibrações vindo até mim através das ondas... eu sentia o vento, o som, o frio.

Eu estava fria, apesar do sol da manhã que esquentava o dia.

Eu estava fria.

Sentada, morta, defronte a uma parede.

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