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Quando foi a tua última primeira vez?

A primeira vez que tu caiu no chão por tentar subir numa árvore?
(ela era tão grande, tu seria um conquistador)
A primeira vez que tu correu com galochas nas poças de água?
(era fim de tarde, todos corriam pelas poças, e tu fazia questão de se encharcar por completo)
A primeira vez que fugiu de casa num dia chuvoso e chorando?
(uma discussão qualquer e tu se vê fugindo)
A primeira vez que tu descobriu que só teu cachorro era realmente amável, como nenhum outro ser?
(seres humanos, tão humanos...)
A primeira vez que tu jogou a pedra e ela quicou mais de uma vez no lago?
(e viu que os tamanhos das ondas eram diferentes)
A primeira vez que tu falou sozinho em frente ao espelho?
(tu sendo social consigo mesmo)
A primeira vez que tu descobriu que inventou o próprio idioma?
(um mundo todo teu)
A primeira vez que tu apostou uma corrida ao contrário e ganhou?
(inventando regras de novos jogos e que se vão...)
A primeira vez que tu surpreendeu alguém ao deixar um bilhete?
(afinal, tu vê tua mãe todo dia)
A primeira vez que disse eu te amo para além de si?
(e descobriu que é lindo agir)
A primeira vez que sonhou com a morte?
(e ficou sem crença?)
A primeira vez que amarrou os próprios sapatos?
(e se sentiu adulto?)
A primeira vez que queimou os dedos ao tentar cozinhar?
(delícia de independência)
A primeira vez que suspirou por um lugar?
(e jurou que voltaria lá?)
A primeira vez que quebrou a perna?
(ou qualquer osso do teu corpo, tão frágil)
A primeira vez que sentiu o ar ficar tão leve e querer voar?
(e não sentiu vertigem de estar alto?)
A primeira vez que encheu de bolhas os dedos por aprender a tocar violão?
(e viu teu amigo rindo do espanto)
A primeira vez que viu uma banda?
(e saiu a procura dela e tentou ser fã)
A primeira vez que gravou uma fita?
(e quebrou o gravador)
A primeira vez que ganhou um livro?
(e teve a sensação preciosa de folhas novas)
A primeira vez que descobriu que era uma criança?
(momentos inoportunos, rindo à toa)
A primeira vez que mandou uma carta?
(e um postal chegou seis meses depois?)
A primeira vez que tu entrou numa sala de espera?
(pela morte, pela doença)
A primeira vez que escalou uma parede e na verdade era apenas o chão?
(spiderman!)
A primeira vez que tu gritou tão, tão alto só pra ouvir o eco?
(e fez concurso de frases idiotas ecoadas)
A primeira vez que tu abraçou alguém para consolar?
(e se sentiu amigo)
A primeira vez que tu jurou nunca mais?
(e nunca mais nunca é)
A primeira vez que tu nunca mais disse nunca?
(nunca diga nunca)
A primeira vez que rodopiou de mãos dadas, girando girando...?
(no pátio da escola)
A primeira vez que pulou corda?
(e tuas funções motoras são péssimas)
A primeira vez que fingiu ser mais velho?
(e deu certo!)
A primeira vez que soube mentir sem culpa?
(pelo próprio bem além da verdade)
A primeira vez que foi ao cinema?
(e teve a sensação da tela aumentar?)
A primeira vez que encontrou folhas sensitivas?
(e as catava em todos os jardins que achava)
A primeira vez que tocou barro no teu primo?
(guerrinha de paz na rua e sermões em casa)
A primeira vez que mergulhou no rio?
(ataque cardio dos pais)
A primeira vez que viu bolhas em cada pessoa?
(e sentiu vontade de furá-las)
A primeira vez que deitou sob o céu escuro e viu animais nas nuvens negras?
(e era com amigos imaginários)
A primeira vez que disse adeus a uma pessoa?
(e soube o valor dela na tua vida)
A primeira vez que colocou as mãos em meio a grama?
(e sujou as unhas sem medo delas ficarem assim)
A primeira vez que provou terra?
(e viu que era terrável)
A primeira vez que leu um livro e deu risada do escrito?
(ouvindo o escritor ao teu lado)
A primeira vez que viu a fome nos olhos de famintos?
(e se sentiu mesquinho por tanto desperdício e chorou)

Quando foi tua última primeira vez?

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Se fora

Me sinto mal, por todos os momentos dos quais te evito, aqui e acolá. Eu não te leio mais. Eu nem mesmo sei quando deveria estar fazendo algo… menos do meu trabalho. Tem sido demais. Muitos amigos foram jantar fora. Eu permaneci. Calada, fronte a tua porta, querendo te ver. Querendo te ter. E tu comeu mundos. Mandou. Mudou. E fui. E nem mais sei o que resta desse espaço virtualístico. Uma esperança?

Atrasado

Ele estava tomado por aquele olhar de rato molhado, na chuva, no escuro. Ele estava corrompido pelas mentiras, pelos brilhos de suas linhas refinadas. Ele era uma pessoa esquisita corrompida pelo olhar terceiro. De um canto, sua voz rouca sumia no ar. Ele, nervoso, ficava suspenso nesse ar. Escondia seu rosto. E foi assim que descobri sua fraqueza. Ele era a falha primeira. E de falhas se sustentava, para perfeição seguir seu cortejo, ele se mutilava. E quando as calças compridas caiam de sua estatura, ele as vestia. E o sentido ficava atordoado, era ele e seus dentes brancos, sua voz rouca, alto e minúsculo, mas alto, ele corria e vestia outras roupas, mas nada nada servia. Ele, usando o buné de terceiros, roubado pelo lado esquerdo pela mão de um agressor, deixado no chão de um acidente envolvendo uma arma. O caos das palavras, estava a me perder, e penso, hoje. Na minha cabeça, não há nada que me leve a voltar um único segundo.

O vencedor Mor

Eu te odeio, - sua dramática. Pois te amo, - seu falsiano. E te odeio, - mentiroso. Te amando, - vai ficando. Quando dá mudança, - eu viro caos. Eu pasmo, - nem me surpreendo. Reviro olhos, - adoro tuas expressões. E te soco a cara, - seu panaca! Na mente, - me dá um beijo. Tu mente, - é necessário. Que é até logo, - ou nunca mais. E nunca mais, - não saberemos amanhã. Vira uma esquina, - e o petróleo queima. E ao vencedor, - o melhor troféu. De rimas, - toca mais uma canção. No meio do teu olho, - vejo tudo ao contrário. Olho, - tu fecha os olhos ao cantar. E não tem mais, - acabou minha playlist. Linhas, - tu sorriu? E não tem mais, - comeu tudo. Perdas, - foram precisas. Só resta temores, - tu me arrepia. Um só, - mais um só. Temo, - será mesmo um só? Que o vencedor, - em uma briga de egos, são feridos nós dois. Dois ganhadores de coisa mais linda, chamado a... Mor.